Terca-Feira, 21 de Janeiro de 2020

Dia de Finados: Nos cemitérios, a história sob os pés e o sofrimento de quem fica




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No cemitério mais antigo de Cuiabá, lápides e túmulos antigos se misturam a suntuosos mausoléus, como o da Família Orlando, tombado pelo patrimônio histórico. A visita é um verdadeiro labirinto pela história de quem viveu pela cidade. Dos mais antigos, um dos mais bonitos, feito em mármore para guardar o descanso da Baronesa de Diamantina, cujas inscrições indicam nascimento em 1846 e falecimento em 1878. Augusto Leverger tem seu espaço no cemitério desde 1880, um dos mais antigos também.

É no dia dois de novembro, de Finados, que o fluxo nos campos-santos de Cuiabá mais aumentam. É tradição a chuva que costuma cair sobre a cidade nesta data, já esperada e bem-vinda, como gotas de poesia que levam a tristeza do dia. Na véspera, é trabalho. O cemitério é preparado para as visitas e famílias se mobilizam para limpar os jazigos dos que já se foram. 

Caminhar pelo Cemitério Piedade é olhar um pouco da história de Cuiabá e Mato Grosso por uma outra perspectiva. Estevão de Mendonça, Dante de Oliveira, Liu Arruda, Jejé de Oiá, Ciriaco Candia e tantos outros descansam ali.

O caminho entre as vielas do cemitério é guiado pelo administrador do local, Sales Lourenço, que destaca duas histórias nos quatro anos em que esta a frente do cargo. Primeiro, um casal que visita todos os dias o túmulo de uma criança, há pouco mais de dois meses morta.

A outra história é a de Renato de Araújo Calhão, um senhor que, depois do falecimento de sua esposa, Dona Yedda da Glória Ramos Calhão, forjou uma cadeira de ferro, fixou-a ao chão, ao lado do jazigo da mulher, em posição que o colocasse sentado de frente a sua lápide. Ali ele passava as horas de muitos dias, até que dois anos depois da morte de Yedda, ele também se juntou a ela, deixando sua lembrança e a cadeira, que permanece até hoje.

Enquanto isso, no Cemitério do Porto, as histórias dos vivos contam a dos mortos.

Jefferson tem de apenas 16 anos, mas uma experiência que poucos adquirem durante toda a vida. O garoto trabalha lavando túmulos do Cemitério do Porto desde os 11 anos. Em meio a seus afazeres da terça pré-finados contou à reportagem do Olhar Direto como começou na tarefa, que já dura cinco anos.

“Minha família sempre morou aqui no Porto”, diz o garoto indicando com as mãos a direção da casa, pouco abaixo do cemitério. “Antes eu trabalhava guardando carro na rua, ai perguntaram se eu queria lavar aqui no cemitério e eu vim”. Não é difícil encontrar crianças pelas ruas de Cuiabá que prestam algum tipo de serviço, sem fazer juízo de valor, a de se concordar que o cemitério é um lugar incomum para vê-las.

A consciência da morte e a naturalidade dessa única certeza da vida se materializam na fala de Fagner, quando perguntado se não tem medo ou sente tristeza em estar ali. “Não tenho não, o cemitério é o lugar mais calmo que tem no mundo, tem paz” responde o menino, de joelhos em cima do jazigo enquanto mergulha uma garrafa pet no balde com água, retira-a cheia e joga o líquido por cima do azulejo.

Nos três dias de trabalho do ano (31, 01 e 02) o garoto diz que chega a ganhar a média de R$350 por dia, dinheiro que divide com a mãe. Sua parte, revela, gastar com crédito para o celular e presentes para sua vó.

Quem paga pelos serviços de Fagner e de outros meninos que trabalham nesses dias no cemitério são os visitantes, que aproveitam a época do ano para “embelezar” os jazigos. O mototaxista Giovani Souza foi um dos que contratou os serviços de Fagner e observando minha conversa com o menino completa: “não precisa ser o dia de finados, você vem num domingo qualquer, é mais tranquilo, você sente uma paz”.

Lotado por jazigos de todos os tamanhos, tanto o Cemitério da Piedade quanto o Cemitério do Porto não possuem mais espaço para novos sepultamentos, a não ser que a família já possua um sepulcro. Atualmente, são 12.800 sepultados em 5.150 jazigos no da Piedade e 4.900 sepultados em 2.250 jazigos no do Porto, que se aglomeram e deixam apenas vielas estreitas para circulação entre eles.

 


Autor:Naiara Leonor com Olhar Direto


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