Sábado, 17 de Agosto de 2019

Miséria, mortes e caos social marcam 4 anos de desintrusão da Gleba Suiá Missu




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Quatro anos se passaram e nada mudou para os produtores despejados da antiga gleba Suiá Missu. A situação das 7 mil famílias é de quase extrema miséria com o registro de mais de 80 óbitos (suicídios, infartos etc) provocados pela medida judicial que transformou a área onde viviam na Terra Indígena Marãiwatsédé. A maioria ainda vive de favores e os poucos que conseguiram algo, enfrentam dificuldades para recomeçar a vida no campo.

A desocupação aconteceu entre os dias 10 de dezembro de 2012 a 27 de janeiro de 2013, num tumultuado processo que resultou em confronto de produtores rurais e as forças policiais requisitadas pela Justiça Federal para garantir a reocupação pelos índios da etnia Xavante. À época, as famílias tentaram resistir, contudo, foram obrigadas a deixar o local sob escolta da Força Nacional, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Embora a medida tenha sido cumprida quase que integralmente em dezembro e janeiro, a Polícia Federal ainda retornou outras vezes à Terra Indígena para o cumprimento de novas determinações judiciais, inclusive, com a prisão de líderes do movimento, entre eles, o presidente da Associação dos Produtores Rurais da Suiá Missu, Sebastião Ferreira do Prado.

Medida judicial

A disputa pelos 165 mil hectares da antiga gleba Suiá Missu começou na década de 40, quando a área, então ocupada por índios da etnia Xavante, foi loteada em dezenas de propriedades rurais e transformada em fazendas para a criação de gado e produção de grãos. Durante mais de 40 anos, a população não índia explorava a terra e acabou surpreendida em 1998 por uma decisão da Justiça Federal em demarcar a área para ser devolvida aos “antigos donos”.

A batalha judicial demandou anos e, finalmente, em 10 de dezembro de 2012, saiu a ordem de despejo para cumprimento imediato. Além de determinar a retirada dos produtores, a Justiça mandou destruir todas as edificações da área, incluindo, o distrito de Porto Estrela, conhecido como “Alô Brasil”. Tudo veio abaixo, inclusive, escolas e igrejas. O que restou foi apenas um amontoado de entulhos para que os índios reiniciassem a reconstrução das aldeias.

Caos social

Quatro anos depois da desocupação da gleba Suiá Missu, Alto Boa Vista, principal ponto de partida para as famílias que ocupavam a área, ainda sente os reflexos da decisão judicial. A cidade padece com os prejuízos causados pela medida e agora se divide em auxiliar produtores e índios.

“Criou-se um caos social. Agora não são apenas as famílias dos produtores que estão passando necessidade. Os índios também enfrentam dificuldades e, quando não recebem ajuda da prefeitura, se alimentam de mangas. Muitos já foram e aqueles que ficaram tentam sobreviver”, disse o prefeito de Alto Boa Vista, Leuzipe Domingues Gonçalves (PMDB).

Segundo o prefeito, se passaram quatro anos e o único movimento em favor dos produtores foi à implantação pelo Incra do Projeto Casulo, que hoje assiste 95 famílias com uma hectare de terras no perímetro urbano de Alto Boa Vista. “É pouco para quem tinha tudo, terras, gado, plantações e hoje vivem de favor na casa de parentes a espera de um milagre. Cometeram o maior caos social de Mato Grosso”, diz Leuzipe.

Auxílio às famílias

Embora não seja uma responsabilidade da prefeitura, o prefeito de Alto Boa Vista ressalta que tem feito o que pode para auxiliar as famílias da Suiá Missu e os índios.

“No projeto auxiliamos na compra do calcário para o preparo da terra para o plantio, doamos cestas básicas e nas quatro aldeias fundadas na Marãiwatsédé, implantamos duas escolas para a alfabetização das crianças indígenas e a contratação de sete funcionários para as unidades. O que está ao nosso alcance, estamos fazendo”, relata Leuzipe, cobrando providências do Incra para o assentamento dos produtores que ainda não tem para onde ir.

Doação de caixões

O despejo das famílias que habitavam a antiga gleba Suiá Missu trouxe uma triste realidade para Alto Boa Vista. A prefeitura se transformou na maior doadora de caixões de Mato Grosso para que produtores ao menos fossem enterrados de forma digna.

Com o registro de aproximadamente 80 óbitos desde a desintrusão, em 10 de dezembro de 2012, coube à prefeitura socorrer as famílias. “Muitos entraram em estado de depressão e não suportaram a pressão ao ver tudo perdido e acabaram tirando a vida ou morrendo de desgosto, além daqueles que foram parar em clínicas psiquiátricas em Goiânia”, relata o prefeito Leuzipe Gonçalves.

Segundo ele, a pressão sobre os produtores foi muito grande. “Perderam tudo, não foram indenizados e até hoje não sabe o que fazer. Isso trouxe consequências trágicas. Imagina você estruturado, dentro de sua terra e de uma hora para outra perder tudo? Não é fácil. Tenho registros gravados de pessoas que moravam na Suiá Missu, falando como tudo começou e como tudo acabou. É triste”, ressalta. 

Em muitos casos, além de perder a terra, os produtores rurais ainda foram multados pelo Ibama por crime ambiental ao explorar a terra onde moravam. “Ainda tem isso para complicar, com multas milionárias, algumas na casa dos R$ 20 milhões”, finalizou Leuzipe.


Autor:Francis Amorim com RDNews


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