Sábado, 17 de Agosto de 2019

Cotas completam 15 anos: primeira turma da UERJ reflete sobre os desafios enfrentados




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Pioneira no uso das cotas no vestibular, há 15 anos, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) decidiu renovar sua aplicação por mais uma década. A extensão do prazo ocorre após resultados positivos — como uma evasão menor entre os cotistas do que na livre concorrência — e a percepção de que é necessário avançar mais. Em 2003, havia 2% de negros na comunidade acadêmica; este percentual foi ampliado para 12% no ano passado. Longe ainda dos 51,7% de pretos e pardos da população do estado.

A consolidação da política afirmativa acontece após um início com dúvidas e críticas. As primeiras turmas de cotistas entraram pressionadas por acusações como a de que estariam roubando vagas de pessoas que mereceriam mais, por terem uma nota melhor no vestibular.

Ouvia o tempo inteiro que os alunos eram totalmente contra as cotas. Que era um absurdo, que eu tinha de entrar pelos méritos das notas, e não por essas vagas reservadas para negros. O clima era péssimo. Todo mundo achava uma injustiça o fato de as pessoas terem conseguido entrar por cota. Não respeitavam e diziam mesmo que não achavam correto, que o critério deveria ser a capacidade — afirma Luciene Ventura, da primeira turma cotista de Matemática e, hoje, dá aulas para turmas do ensino médio.

A história de Luciene mostra uma mudança de toda uma família graças as cotas. Sua irmã, Luciana também foi beneficiada e cursou Engenharia Química. Depois de formada, fez mestrado na Uerj, doutorado na PUC-Rio e trabalhou por dois anos como gerente de qualidade do ar do Rio de Janeiro. Em 2018, seguiu para os Estados Unidos, onde fez pós-doutorado na Universidade da Califórnia.

O começo de Josilene de Oliveira na universidade também não foi tranquilo, mas, ao final, o saldo foi positivo. Entrar na faculdade abriu minha mente, proporcionou amizades que jamais teria e melhorou minha autoestima. A universidade mudou minha vida — conta ela, que hoje atua no Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase) e leciona na Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec).

As cotas na Uerj obedecem a uma reserva de vagas de 20% das vagas a candidatos da rede pública, 20% a negros ou indígenas e 5% a pessoas com deficiência e filhos de policiais, bombeiros ou inspetores de segurança, mortos ou incapacitados em razão do serviço. Em todos os casos, deve-se comprovar renda per capita inferior a R$ 1.431. Por motivos diversos, como aprovação em outras universidades, os percentuais previstos para a Uerj (45% de cotistas por ano, somando os três tipos) não foram alcançados nesses 15 anos. Até hoje, as cotas preencheram 30% das vagas.

O Brasil está ainda aprendendo a lidar com as cotas, que é uma política muito positiva, claro — avalia Cleuza Repulho, especialista em Educação. — O que precisa se garantir é o acesso à educação básica. Quando nos perguntamos quem são os dois milhões de crianças fora da escola, a resposta é: são as negras, da área rural ou com deficiência. Ou seja, há problemas estruturais que precisam ser resolvidos antes das cotas.

Em 2018, o percentual de cotistas da Uerj teve uma das suas piores quedas, ficando em 20%. Subreitora de Graduação, Tania Carvalho Netto atribui a redução à conjuntura econômica. É um dado fora da curva. O desemprego atingiu níveis vertiginosos, e parte da população teve que escolher entre trabalhar ou estudar — diz. — Mas o saldo é muito positivo. Temos indicadores que mostram que a evasão entre os cotistas é menor. Quem ficou muito tempo sem entrar no ensino superior não vai perder essa oportunidade.

Segundo outro levantamento da Coordenação de Avaliação e Inovação da Uerj (Caiac), 36,4% dos ingressantes por ampla concorrência saíram de seus cursos. Entre os cotistas, esse percentual foi 10 pontos a menos. Os dados vão desde o início da político até 2017.

Um estudo com turmas de 2005 e 2006, feito pelos pesquisadores Teresa Bezerra e Claudio Gurgel , mostra a diferença de evasão entre diferentes cursos. Quando visto o de Pedagogia, a evasão foi de 4,27% entre os cotistas. Já entre os que entraram por ampla concorrência, 33,17%. A diferença cai quando são selecionados os cursos denominados "de elite", como Medicina. Nele, o percentual de cotistas que saíram foi de 4,65% contra 5,88% de não-cotistas. Um destes exemplos é o de Danielle Cristina, da primeira turma de Pedagogia, que diz que entrou "achando que era pela janela", mas passou a "entender e valorizar sua negritude" durante a graduação.

Entrei pela oportunidade, fiquei por representatividade. Hoje, sou exemplo para familiares e para os meus alunos que me veem e imaginam que uma negra pode se formar e dar aula — orgulha-se Danielle, graduada em 2009 e atualmente professora da cidade do Rio, mas sem deixar de mencionar os problemas que enfrentou: — Quando a gente começou, foi muito difícil. Não tinha bolsa. A gente não tinha como pagar xerox, passagem e alimentação. Durante a história das cotas, que é um pouco da nossa luta, esses benefícios foram aparecendo.

Atualmente, cerca de nove mil alunos recebem benefícios que vão desde bolsas para ajudarem nos custos da faculdade, auxílio para compra de material relativo ao seu curso, como jaleco para Medicina e instrumentos para arquitetura, passe-livre para o transporte e a universidade ganhou um restaurante universitário que contribuiu para o barateamento do custo com alimentação.

— É por esse motivo que temos que continuar mais dez anos. É para ampliar a política estudantil de forma a garantir cada vez mais a permanência dos alunos — afirma Elielma Machado, coordenadora do Caiac.


Autor:AMZ Noticias com G1


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