Na era dos jogos eletrônicos e da caça ao Pokémon, pode parecer ultrapassado pensar em crianças e adultos correndo e interagindo em brincadeiras antigas como soltar pipas. Especialmente em um país como o Brasil, onde a quantidade de linhas de celulares (253,4 milhões) já superou o número de habitantes (206,3 milhões – dados do IBGE), para muitos viver conectado é mais que essencial, uma questão de sobrevivência.
Já tem até doença identificada, nomofogia, e também tratamento, para a síndrome que atinge quem não consegue se desgrudar do celular nem por um minuto, seja ligado nas redes sociais, seja em jogos. Mas, ao contrário do que se pensa, muitos preferem interagir com pessoas fora do ambiente virtual. Soltar pipas, ao invés correr riscos atrás de bichos virtuais, continua sendo opção.
Apaixonado por pipa, o aposentado José Butaka Filho, 63 anos, transformou a brincadeira em um negócio lucrativo. Em sua loja, a “Zé das Pipas”, ele oferece uma diversidade de modelos que encantam os aficionados pelo brinquedo.
Butaka vende em média 60 pipas ao dia. Os preços variam entre um e cinco reais. Ele também comercializa linhas, “rabiolas” e outros apetrechos mais caros. Grande parte dos produtos é fabricação própria. Até cerca de quatro anos atrás, Butaka Filho era só mais um cuiabano adulto que nas horas de lazer preferia empinar pipas a assistir televisão e outros equipamentos eletrônicos.
Depois que se aposentou, mesmo com opiniões contrárias na própria família, ele decidiu vender os brinquedos que até então fabricava somente para consumo pessoal. Primeiro abriu uma porta no fundo do quintal de casa, no bairro CPA IV, por onde atendia os clientes. Menos de um ano depois, passou para uma loja própria, vizinha de casa, que também teve de ser substituída por um salão maior.
Um de seus filhos abriu uma loja no bairro onde mora, o Santa Isabel. Butaka não revela seu faturamento, mas assegura que o salário como “Zé das Pipas” é quatro ou mais vezes a sua aposentadoria de servidor público municipal. O empresário avalia que deixou de ganhar mais por não acreditar no negócio. “Na época em que comecei, poderia ter aberto muitas lojas, mas agora a concorrência está grande demais. Já não permite expansão”, reclama.
A loja dele tem clientes de todas as idades, adultos e crianças. Luiz Felipe de Souza, 11 anos, aluno do 6º ano da Escola Estadual Victorino Monteiro, no CPA IV, é cliente desde os primeiros anos de vida. Mesmo na pré-adolescência, Felipe não quer saber de telefone celular, tampouco caçar Pokémon. O prazer dele está em correr de um lado para o outro, por horas, empinando a “pandorga”.
Matheus Manoel Santana da Silva, 7 anos, até que gosta de jogos eletrônicos; porém, esquece tudo quando está entretido com suas pipas. A mãe dele, Lucinete Silva, além de incentivá-lo, participa da brincadeira, auxiliando o filho na hora de fazer a pandorga alçar voo. Com pelo menos cinco pipas novas em casa, Matheus é um cliente fidelizado da “Zé das Pipas”.
João Luiz Pereira, 28 anos, morador do Doutor Fábio, também adora brincar com pipas. Ele já está tentando repassar ao filho “Luizinho”, de quatro anos, o gosto pela arte de fazer, consertar e ver a pipa fazendo piruetas nas alturas.
Autor: Alecy Alves com Diário de Cuiaba