Em um ponto equidistante entre o Pacífico e o Atlântico, em pleno coração do Brasil, está o Araguaia, em Mato Grosso. Uma região ainda desconhecida por muitos brasileiros ou reconhecida apenas por ser uma dos maiores produtoras de carne do país. O desafio atual é consolidar as belezas naturais e os atrativos históricos e culturais da Serra do Roncador, as cidades banhadas pelos rios Araguaia e Mortes como um destino turístico internacional e nacional. A nova Marcha para o Oeste agora será empreendida por viajantes em busca do turismo histórico e de natureza.
Um dos pontos de partida para a “Rota Roncador” é uma antiga Missão Salesiana às margens do rio das Mortes, na sede da fazenda Água Viva, em Cocalinho. Construída em meados dos anos de 1950, a casa é contemporânea da primeira entrada de colonizadores no Araguaia. Quando movidos pelo último movimento de interiorização do país, as nações indígenas isoladas do Centro-Oeste foram surpreendidas pela “Rota Brasil Oeste”, liderada pelos sertanistas Leonardo, Cláudio e Orlando Villas-Bôas, e promovida pelo regime militar para que famílias dos Sul e do Sudeste criassem cidades e desenvolvessem o Centro-Oeste e a Amazônia. Uma epopeia que entrou para a História como das últimas aventuras do século XX.
Um período também marcado por conflitos com povos indígenas e muita luta pela terra, só minimizados com a criação do Parque Nacional do Xingu, em 1961, para onde foram relocadas 5.500 indígenas de 14 etnias diferentes para uma área de 27 mil km2.
Vendida como um local habitado por índios selvagens, riquezas minerais, feras que deveriam ser dominadas, colonizar o Araguaia foi uma ousada política de governo. Até 1940, praticamente os 43 milhões de habitantes do Brasil estavam concentrados no litoral e o interior e a floresta eram o “Inferno Verde” temido por todos.
Para Helen Cristina e Sérgio Ricardo Bourguigon, os tesouros do Araguaia são justamente esses elementos que antes causavam tanto temor. O casal lidera, junto com um grupo de 50 fazendeiros que formam a Liga do Araguaia, uma iniciativa que busca a sustentabilidade da pecuária na região. O turismo é um dos componentes mais importantes da iniciativa, para isso eles estão fazendo estudos em todas as propriedades locais para realizar o diagnóstico dos atrativos das fazendas que deve integrar uma grande rota a ser divulgada nacional e internacionalmente.
Em dois meses de iniciativa, o levantamento dos Bourguigons surpreende. A existência de um grande potencial para a visualização de onças-pintadas é um dos atrativos locais. “Estamos com uma parceria com o biólogo Leandro Silveira, presidente do Instituto Onça-Pintada, que atua no Parque Nacional das Emas, em Goiás. E já descobrirmos que aqui além de existir ambientes preservados, que contam com a presença de onças-pintadas, também existem propriedades dispostas a trabalhar para receber animais que precisam ser reintroduzidos. O que pode ser um grande aliado do turismo”, explica Helen Cristina, administradora e uma das responsáveis pelo estudo de desenvolvimento regional da iniciativa.
Além do turismo de visualização de fauna e histórico, a região conta também com muitos atrativos naturais. As lagoas de águas cristalinas do Araguaia estão entre as mais belas do país. Também existe uma série de nascentes conhecidas como “fervedouro”, de onde a água brota constantemente e é possível fazer flutuação.
O turismo de pesca e de praia nos rios das Mortes e no Araguaia são as estrelas das atrações. As praias do Araguaia possibilitam que os visitantes tenham contato com animais como botos e tartarugas de água doce, os quelônios do Araguaia. No período de pesca, é possível se aventurar na busca de gigantes piraíbas, pirararas, tucunarés e matrinxãs, tambaquis.
As grutas e belíssimas cavernas de calcário Serra do Roncador possibilitam a interação entre diversas modalidades de turismo. Na cidade de Água Boa, por exemplo, ao menos três vezes ao ano, milhares de visitantes já buscam a região para participar de rituais de cura espiritual que acontecem no Santuário Místico e Ecológico do Roncador.
Administrado pelo movimento da Gnose, que busca um conhecimento eterno e universal que visa levar o ser humano ao desenvolvimento de suas potencialidades adormecidas (ou latentes), o grupo promove rituais em uma das cavernas da serra e já tem uma pousada consolidada na cidade.
“Nossa proposta é atrair os visitantes que vêm todos os anos para o santuário, para também conhecerem as belezas naturais, a história e os rios do Araguaia”, explica o guia de turismo e biólogo Sérgio Ricardo Bourguigon. “O eixo dessa visitação pode acontecer pela cidade de Barra do Garças, que também já conta com um voo direto para as cidades de Cuiabá e Goiânia”.
Para o proprietário da fazenda Água Viva, que comprou a sede da Missão Salesiana e a reformou já pensando no turismo, a concretização da Rota Roncador é uma esperança para ajudar na sustentabilidade da pecuária. “É mais uma iniciativa para agregar valor as nossas áreas verdes. Que na maioria das vezes permanecem intocadas e, com o turismo, tornam-se também potenciais geradores de renda, o que pode inclusive ajudar nos custos necessários para garantirmos uma produção de carne com menos impactos ambientais no Araguaia”, afirma Caio Penido.
Autor: Juliana Arini com Circuito MT