Após provocar pânico pelo WhatsApp, o desafio da boneca Momo está de volta. Desde o mês passado, estão circulando nas redes sociais vídeos infantis que, de repente, são cortados e substituídos pela imagem que foi associada ao conteúdo, ameaçando e dando ordens de automutilação.
Os relatos afirmam que as imagens foram capturadas do YouTube Kids, aplicativo criado para menores de 13 anos, mas sem nenhum link ou referência gráfica a ele. E o alvoroço, que se reflete em buscas na internet, está impulsionando esse conteúdo on-line, tornando-o mais acessível para as crianças.
Nas buscas realizadas pela reportagem foram identificados três vídeos diferentes em que o desafio está inserido. Um com os personagens de “Peppa pig”; outro sobre o clipe “Baby shark dance”, da dupla Pink Fong; e o terceiro num vídeo de uma menina brincando com slime (espécie de geleca).
Neste, existe uma marca d’água de um site chamado GuffDump.com. Informações que constam no who.is mostram que o endereço foi registrado no dia 16 de fevereiro. A conta no Twitter, também criada em fevereiro, tem apenas três publicações, sendo a primeira o vídeo com o desafio Momo.
Com base em relatos de mães e pais, o Ministério Público da Bahia abriu no sábado um procedimento para apurar o caso. Foram enviadas notificações para Google (dona do YouTube) e WhatsApp pedindo informações e a remoção desse conteúdo, num prazo de 24 horas.
“Houve um relato na imprensa, e nós instauramos o procedimento imediatamente”, explicou o promotor Moacir Nascimento, do Núcleo de Combate a Crimes Cibernéticos (Nucciber) do MP. “Não é dizer que o Google e o WhatsApp sejam culpados. Culpado é quem fez o vídeo. Nós queremos saber é em que medida essas empresas podem ajudar. Em Mato Grosso, a Polícia Civil investiga o compartilhamento de vídeos no WhatsApp com a boneca, segundo o delegado Eduardo Botelho, da Gerência de Combate a Crimes de Alta Tecnologia (Gecat).
SUPERVISÃO - Em comunicado, o YouTube afirma não ter recebido “nenhuma evidência recente de vídeos mostrando ou promovendo o desafio Momo no YouTube Kids”.“Conteúdo desse tipo violaria nossas políticas e seria removido imediatamente. Também oferecemos a todos os usuários formas de denunciar conteúdo, tanto no YouTube Kids como no YouTube”, diz a companhia, destacando que menores de 13 anos devem ter o uso restrito ao YouTube Kids, com supervisão de responsáveis. “É possível que a figura chamada de ‘Momo’ apareça em vídeos no YouTube, mas somente naqueles que ofereçam um contexto sobre o ocorrido e estejam de acordo com nossas políticas.” Contatado, o WhatsApp não se manifestou até a conclusão desta edição.
A partir do pânico gerado pelo vídeo, pais desesperados correm atrás de informações, buscam pelos vídeos no YouTube e, dessa forma, fazem com que os algoritmos de buscas aumentem a relevância do termo “Momo”. O Google Trends, por exemplo, registra um aumento repentino nos últimos dois dias para as buscas “momo aparece em vídeos”, “vídeo momo slime”, “vídeos momo slime”, “momo em vídeos de slime”.
O efeito perverso dos algoritmos é que, com o aumento das buscas com o termo “momo” relacionado a “slime”, é maior a probabilidade de uma criança buscar por “slime” e se deparar com um vídeo com referência ao desafio. A preocupação dos pais é compreensível, mas o melhor a fazer, dizem especialistas, é parar de repassar esses vídeos em grupos de WhatsApp e de publicá-los no Facebook e no YouTube. Os vídeos existem, mas os pais acabam colaborando para a sua divulgação.
“O grande problema é uma criança navegar pela internet desassistida”, alertou Nascimento. “Tem pais que não fazem ideia do que os filhos fazem na rede. A internet é um janelão aberto para o mundo, onde existem pessoas perigosas. Se você não deixa seu filho sozinho numa praça pública, não pode permitir que ele se conecte com qualquer pessoa”, disse.
David Emm, pesquisador do Kaspersky Lab, afirma que a melhor defesa das crianças contra conteúdos maliciosos que circulam na rede, como o desafio Momo, é o contato próximo e aberto com os pais. Ele recomenda que os responsáveis tenham conversas regulares com as crianças e entrem em acordo sobre quais sites são apropriados, fazendo-as entender o raciocínio dessa decisão. Os filhos também devem se sentir seguros em falar sobre qualquer coisa perturbadora que tenham encontrado on-line.
Os pais devem se certificar de que os filhos entendam que não devem “fazer amizade” com alguém que não conheçam na vida real nem adicionar números desconhecidos em seus contatos. Também devem conscientizar as crianças a nunca compartilhar informações pessoais, como números de telefone e endereços. O uso de configurações parentais e de segurança também é recomendado.
Autor: Sérgio Matsura com Diário de Cuiabá