Entre o “sim” seco e o “não” lacônico ele desconversa. Na amplitude da entrevista se deixa trair pelo subconsciente e com todas as metáforas possíveis assume que será candidato ao governo pela terceira vez. Isso foi o que arranquei ontem, do senador republicano Blairo Maggi, na solenidade de transmissão do Comando Geral da Polícia Militar.
Blairo chegou ao palanque das autoridades no Comando Geral da PM quando faltam 20 minutos para o ato formal, às 19h. Até então, tratava-se de uma solenidade tipicamente militar, com suas formalidades. Ao pé do palanque, oficiais superiores não cessavam num vaivém sem fim, orgulhosos de suas estrelas douradas.
O silencio era cortante apesar da movimentação no entorno do palanque. Quando Blairo despontou acompanhado por um grupo de coronéis e o deputado estadual peemedebista Baiano Filho, as centenas de cadeiras colocadas à margem do passeio para que populares assistem a transmissão ficaram vazias. Todos, sem exceção, se levantaram e o aplaudiram. Entre as palmas ouviam-se gritos de “Ru-ruuuuuú”. A veia política do senador e ex-governador falou mais alto. Quebrando o protocolo, ele sorriu e acenou ao povo. Os aplausos continuaram até que ele sumiu em meio aos quepes.
Aproximei-me do palanque. Prestei atenção para ver como ele se comportaria. Durante a solenidade Blairo foi o mais requisitado para conversas ao pé do ouvido. Também foi o mais falante e risonho. A tal veia política não lhe deu sossego.
Ao microfone o coronel Evandro Roxo de Medeiros anunciou o fim da solenidade. Esperei pelo senador ao pé da escada do palanque. Antes que conseguisse me aproximar dele, um grupo de admiradores o amarrotou com abraços, tapas nos ombros, pedidos para fotos posadas e, claro, não faltou os que lhe dissessem abertamente para voltar ao governo. Cauteloso, Blairo respondia com sorrisos, mas nada falava sobre eventual candidatura.
Desfeita a tietagem política conversei com ele.
- As palmas na chegada mexerem com você?
- Claro que mexeram. – Respondeu seco.
- (Insisto) Mas, só isso...
- Fico feliz com a manifestação do povo - acrescentou medindo as palavras.
- Os aplausos – vou direto ao assunto - não foram somente pelo seu governo. Conversei com alguns que bateram palmas e me disseram que aquela manifestação foi um pedido de “volte”...
- Que bom que eles querem – se abriu um pouco.
- Qual sua resposta pra isso, Blairo?
(Sorri, sorri muito, mas nada diz)
- Poxa, Blairo, político que não fala e faca que não corta...
- Eu tenho muito em comum com essa gente – Blairo deixa escapar essa frase.
- (O encosto na parede) Então é candidatura na certa?
Blairo volta a sorrir.
- O (deputado estadual) Nininho me disse que você admitiu pra ele que seria candidato e, isso, segundo ele, em outubro do ano passado...
- O Nininho falou? Falou mesmo? Você vê como são as coisas. Agora é o povo que está falando.
Tento mais uma pergunta, mas novamente Blairo está nos braços de figuras humildes que assistiam a transmissão do comando. Perto dele autoridades conversam entre si. Desanimo. Saio de fininho. Ele nota e mata nossa conversa com a resposta mais objetiva possível, um largo sorriso.
Aquele riso não era outra coisa senão felicidade ao ver o povo facilitar as coisas pra ele. De agora em diante não precisará mais que Nininho revele que Blairo será candidato, porque seu nome está sacramentado pela voz das ruas, que legitima e joga por terra toda estratégia de protelar candidatura como se essa tivesse que ser tão secreta quanto o voto.
Autor: Eduardo Gomes de Andrade